6 de mai de 2011

12 de fev de 2010

História de Mowgli - Parte III

Como apareceu o medo


Certa vez, no inverno, quando as chuvas deram de falhar, e a Jângal, cada dia que passava, ficava mais seca, os animais estavam morrendo; o único que engodava era Chill, que comia carniça, e como tinha carniça!

O Waingunga era a única reserva de água, a correr por entre a Jângal. E quando Hathi, o elefante selvagem, viu no centro do rio uma rocha, ele reconheceu que era a Rocha da Paz. Ergueu então a tromba e proclamou a Trégua das Águas, como seu pai fez há cinqüenta anos arás.

Segundo a Lei da Jângal, é proibido caçar nas horas de matar a sede, pois os animais vinham magros de fome ao bebedouro.

Todos se reuniram lá para falar da seca.
Certa vez Shere-Khan chegou no bebedouro para molhar a face e comentou que tinha matado, não fazia uma hora, um homem. Hathi perguntou a Shere-Khan se ele havia matado o homem por gosto. Shere Khan respondeu:
-Sim. Era meu direito e estava em minha noite de caça.

-Sim eu sei, disse Hathi. Se já acabou, então pode ir embora.

Mowgli perguntou então:
-Que direito é esse que Shere-Khan falou, Hathi?

-Trata-se de uma história muito antiga, mais antiga que a velha Jângal.

Hati pediu silêncio para contar a história.
-No começo da Jângal, mas ninguém sabe quando foi, nós convivíamos harmoniosamente, sem que tivesse medo um do outro. Não existia seca naquele tempo, todos os animais alimentavam-se de folhas flores, frutas e cascas.

O Senhor da Jângal era Tha, o Primeiro dos Elefantes. Foi a tromba de Tha que tirara a Jângal do fundo das águas, com as patas, se formaram lagos. Deste modo se formou a Jângal.

Ocupado em criar novas florestas e abrir novos rios, Tha fez o Primeiro dos Tigres, o mestre e o juiz da Jângal, para que se existisse alguma queixa, fosse feita ao primeiro dos tigres, já que Tha não tinha tempo.

Naquele tempo, o primeiro dos tigres comia ervas e frutas como os demais, ele era grande, como eu sou, e belo de cor; tinha a cor das trepadeiras amarelas, nenhuma listra ou pinta manchava sua pelagem macia. Todos os animais chegavam perto dele sem medo, sua palavra era lei.

Certa noite, houve disputa entre dois gamos, pelas pastagens, que se resolveu a coices e chifradas. Os dois foram à presença do primeiro dos tigres, que durante a conversa, um dos gamos o feriu com um dos chifres e, esquecido de que era o juiz, o tigre deu um munhecaço, quebrando o
pescoço do gamo.

Até aquela noite, ninguém havia morrido.

Nós desconhecíamos a morte e o Primeiro dos Tigres, vendo o que fez, sentiu-se alucinado
pelo cheiro de sangue, correu e mergulhou no mato. Ficando sem juiz, os animais passaram a
disputar tudo, ficando a Jângal abandonada. Quando Tha chegou, não disseram-lhe o que havia acontecido, mas Tha percebeu o corpo do gamo. Ninguém respondeu, estavam todos doidos pelo cheiro do sangue.

Há então deu ordem aos cipós e árvores de galhos baixos que margeiam as trilhas para que marcassem o matador, de modo que pudesse ser sempre reconhecido. Tha perguntou a todos quem queria ser o chefe do povo, o macaco gris saltou dos galhos onde vivia e respondeu que seria o chefe; mas o macaco deu de coçar-se e pular. Quando Tha voltou de novo, encontrou o macaco gris de cabeça para baixo, pendurado pelo rabo num galho, fazendo macaquices para o povo da Jângal, que começou a gozar dele. Tinha assim desaparecido a lei, sendo substituída pela conversa tola e sem sentido.

Então, Tha nos chamou e disse:
-O primeiro chefe que eu dei a vocês, trouxe a morte para a Jângal. É tempo de vocês terem uma lei que não seja quebrada. Será ela o medo. Quando encontrarem o medo, verão que é ele realmente o vosso chefe.

Então o povo da Jângal perguntou:
-Que é o medo?

E Tha respondeu:
-Vocês aprenderão em breve. Procurem!

Então o povo da Jângal espalhou-se à procura do medo. Certo dia os búfalos...
-Uh! Interrompeu Mysa, o chefe da manada de búfalos.
-Sim, Mysa, os antepassados dos teus búfalos de hoje, apareceram com a notícia de que no meio da floresta, lá em uma gruta, morava uma criatura sem pelo no corpo e que andava de pé.

O povo da Jângal então foi até à gruta, e encontrou o medo. Quando nos viu chegar, gritou, e sua voz nos fez ficar com o medo que até hoje nos causa, sempre que o ouvimos.

Quando o Primeiro dos Tigres ficou sabendo que o povo da Jângal tinha encontrado o medo lá naquela gruta, disse:
-Irei ver essa coisa nua e lhe quebrarei o pescoço.

Disse e fez. Andou toda a noite à procura da gruta e foi então que as árvores e cipós do caminho atentos às ordens de Tha, o riscaram de listras nas costas, na testa e no focinho. Sempre que esbarrava num galho ou cipó, ficava com uma listra ou pinta nova em sua pelagem amarela. E essas marcas até hoje seus descendentes as usam.

Quando ele chegou na gruta, o pelado apontou para ele e disse:
-O manchado aí vem.

O primeiro dos tigres teve medo do pelado e voltou, miando, para o mato. Tão alto miava o tigre, que Tha o ouviu e perguntou:
-O que aconteceu?
-Achei o medo, e ele me expulsou e me chamou de sujo e fiquei mal visto pelo povo da Jângal.
-E por quê?
-Porque eu estava todo listrado de lama!
-Então vá lavar-se no rio, para que tuas listras saiam.

Então, o tigre se banhou no rio para tirar as manchas, mas nenhuma listra saiu.
-O que fiz para ficar assim? Perguntou o tigre.
-Você matou um gamo e espalhou o medo em nosso povo.

Tha então mandou o tigre embora, mas antes disse para o tigre que por uma noite, a cada ano, quando ele encontrar o pelado, cujo nome é Homem, não terá medo, mas o pelado sim.

Logo depois, ele foi beber água, viu refletir suas listras e lembrou que o pelado tinha lhe chamado de sujo, então percorreu a selva, esperando o dia que Tha lhe prometeu. Ele esperou a lua e foi atrás do pelado, e lhe quebrou a espinha com um munhecaço, pensando assim que tinha matado o medo. Tha logo ficou sabendo da morte do pelado e foi arás do tigre e disse para ele que havia muitos pelados. Com essa morte, ninguém mais iria arás dele, nem dormiriam perto dele.

Quando amanheceu, apareceu na boca da gruta outro pelado, e viu o que o tigre fez, e pegou uma enorme lança, com uma ponta afiada, atirou no tigre, que correu até que quebrasse a vara. Os filhos da Jângal ficaram sabendo que os pelados poderiam matar de longe e ficaram com medo do
Homem. Foi o primeiro dos tigres que ensinou o homem a matar.

Hathi mergulhou a tromba na água, dando assim por encerrada a história. Mas Mowgli perguntou a Baloo por que os tigres alimentam-se de carne hoje, se antigamente eles comiam apenas folhas de árvores e ervas. O que foi que o levou a comer carne? E Baloo respondeu:
-Porque ele quebrou apenas o pescoço do gamo, não o comeu, mas as árvores e cipós o haviam marcado.Por isso, o tigre não alimentou-se mais de folhas e ervas rasteiras.
-Até você sabia dessa história, Baloo? Perguntou Mowgli.
-Sim, eu sei de muitas histórias, Mowgli!

5 de fev de 2010

História de Mowgli - Parte II

As caçadas de Kaa

Mowgli, o menino criado por lobos, passou a fazer parte da Alcatéia, e portanto era um grande amigo dos animais da floresta.

Uma vez, ele disse a Baloo e Bagheera que gostava doa dos Bander-Logs. Eles não têm leis como os lobos, somente falam para os outros eu possuem uma; se consideram muito inteligentes e espertos, mas nunca fazem nada, apenas falam muito, em vez de trabalhar. Nada na selva tem a ver com eles: são covardes e sobem nas árvores para atirar cocos e galhos nos animais feridos. Sempre estão pensando em criar suas leis, porém se esquecem com facilidade de seus interesses.

Um dia, os Bander-Logs seqüestraram Mowgli. Eles haviam estado observando-o por entre as árvores, enquanto construía uma casa pequena com galhos e folhas para abrigar-se. Pensaram que seria muito bom aprender a construir casas como Mowgli. Enquanto ele dormia, se arrastaram até perto deles e os mais fortes pegaram-no pelos braços, subiram até o topo das árvores e correram quilômetros e quilômetros com ele, saltando por entre as árvores. Às vezes saltavam com Mowgli por espaços abertos, de uma árvore à outra. Assim, com saltos e gritos, a tribo inteira de Bander-Logs andou um largo trecho, levando Mowgli prisioneiro.

Enquanto “voava”, Mowgli ia pedindo auxílio aos animais amigos. Acima, no céu, Chill, o pássaro milhano, se deu conta do que passava e , observando para onde o levavam, avisou Baloo e Bagheera, que entraram floresta adentro o mais rápido que puderam, na direção em que os macacos haviam levado o menino. Porém, Baloo já estava velho e não podia nadar tão depressa quanto os macacos.

No caminho, encontraram Kaa, a grande serpente píton, de nove metros de comprimento.

Esta, de bons instintos, porém muito astuciosa, desejava ardentemente comer os Bander-Logs e com facilidade foi convencida a ajudar; além de tudo, Bagheera lhe contou que os macacos a haviam chamado de “Lombriga-amaela-da-terra-sem-pés”. A velha Kaa não era muito de se irritar, mas esta falta de respeito a fez arder de raiva e quando Baloo lhe perguntou se ela iria ajudar a salvar Mowgli dos macacos, ela respondeu que sim!

Kaa, Baloo e Bagheera dirigiram-se para uma cidade em ruínas, onde os macacos viviam e era lá que eles representavam a comédia em que fingiam que eram homens.

Bagheera, rápida, se adiantou e quando viu os macacos reunidos ao redor de Mowgli, lançouse sobre eles e os atacou sem pensar, mas havia milhares deles! Eles então pularam em cima de Bagheera e dominaram-na. Depois, a machucaram muito, e ela então foi obrigada a refugiar-se em uma peça que continha muita água, enquanto Baloo os atacava também.

Para assegurar-se de que Mowgli não lhes seria tomado, os macacos o colocaram em uma
pequena casa de verão, subiram até o teto e deixaram-no cair em um lugar de onde não podia escapar, pois o local era cheio de cobras. Mas ele imediatamente falou a SENHA que usam as cobras na selva: “Somos do mesmo sangue, tu e eu, irmãozinho”, e desta forma as converteu em suas amigas.

Baloo estava passando muito trabalho, quando chegou a velha Kaa que, utilizando todas as suas forças se lançou sobre o bando de macacos dando golpes com sua dura cabeça para direita e para a esquerda, difundindo terror com seus assovios.Os macacos sabem que sua carne é mais gostosa e que as serpentes gostam. Assim, cheios de terror, correram!

Enquanto isso, Baloo e Kaa dirigiram-se para salvar Bagheera e depois foi Kaa quem
conseguiu resgatar Mowgli, fazendo com sua cabeça um enorme buraco na parede por onde Mowgli pode escapar. Kaa imediatamente começo a dar voltas em um campo aberto, enquanto assoviava.

Os macacos que estavam no topo das árvores perceberam que ela estava dançando a “Dança da Fome”. Conforme se enroscava e dava voltas sobre si mesma, os macacos não podiam resistir à tentação de observá-la , a tal ponto que perderam o domínio sobre si mesmos. Então ela ordenou que eles a cercassem, o que foram fazendo gradualmente, até que ficaram tão perto, que ela pode pegar um a um para depois comê-los e satisfazer sua fome.

Mowgli, Bagheera e Baloo voltaram para casa com a promessa do menino de que passaria a ouvir os conselhos de Baloo, para não se meter mais em encrencas.

22 de jan de 2010

História de Mowgli - Parte I

Os Irmãos de Mowgli


Há muito tempo, na Índia, um enorme tigre percorria a selva em busca de alimento. Chegou à uma clareira onde se encontravam acampados um lenhador e sua família, e pensou no banquete que iria fazer com aquele homem que dormia, ou melhor ainda, aquele menino gordo, filho do lenhador, que ali se encontrava.

Apesar do tigre ser enorme e robusto, não era muito bravo e não estava disposto a enfrentar abertamente um homem armado.

Assim, ele deslizou em direção à fogueira, mas por não prestar atenção por onde andava, acabou machucando as patas, quando pisou nas brasas da fogueira. A dor o fez rugir e despertou a família acampada. O tigre, então, não teve outra saída senão escapar, furioso e mancando.

Também o lenhador e sua mulher ficaram apavorados e não repararam que o menino tinha resolvido andar pela noite, não imaginando o perigo.

Com o passo inseguro, foi subindo a colina e logo, sem saber como, entrou na cova de um enorme lobo, bravo, porém nobre e bondoso. Ao ver que o menino entrava sem medo na cova, e considerando que o tigre o queria devorar, o pai lobo pegou o menino e colocou entre seus lobinhos recém nascidos, que estavam brincando por perto da mãe loba, Raksha.

Esta viu o pequeno filhote de homem juntar-se sem receio com seus lobinhos e ficou com ele. Pouco tempo depois, Tabaqui, o chacal, procurou Shere-Khan e lhe disse: Senhor tigre, sei onde está o menino que tanto lhe dá apetite. Se á matares, podes me dar uma parte como prêmio, por lhe haver dito o esconderijo. Ele está naquela cova, abaixo da colina.

O chacal é um animal nojento, que induz os outros animais a caçar e matar, contentando-se com as sobras que lhe deixam, por isso também era conhecido com lambe pratos.

Shere-Khan foi, em seguida, à entrada da cova, que era muito estreita, que só lhe permitia meter a cabeçaa na sua abertura. Tal circunstância fazia com que o lobo não o temesse, já que se encontrava dentro da cova.
Roca de Conselho

O lobo advertiu o tigre que fosse buscar seu alimento em outro lugar, que ele não devia transgredir as leis da selva, que proíbe a um animal matar um ser humano, porque isto faz com que muitos homens se reúnam para capturar o assassino.

Shere-Khan rugiu com raiva e começou a lançar ameaças ao pai lobo. Raksha se uniu ao esposo para expulsar o tigre dali, pois ela havia se proposto a cuidar do menino, que um dia cresceria e teria condições de matar Shere-Khan.

O tigre se retirou e o menino permaneceu com os lobos e cresceu como membro da famÍlia. Chamaram-lhe Mowgli, que significa "pequena rã". Levaram-no À Roca do Conselho, onde se reuniam os lobos para apresentar seus filhotes para a AlcatÉia. Na ocasiÃo, o chefe da AlcatÁia, o lobo AkelÁ, disse que, para que Mowgli fosse aceito, ele teria que ser recomendado por dois membros da floresta.

Então, de repente apareceu uma sombra: era um urso chamado Baloo, que se propôs a ensinar a Mowgli as leis da Jângal, as diferentes vozes dos animais e os diferentes tipos de comida. Mais tarde apareceu a pantera negra, Bagheera, que ofereceu um touro gordo pela vida de Mowgli, esta ensinou-lhe a caçar, pescar e também outros truques da imensa Jângal.

Mowgli, como pequeno lobo, tinha muito que aprender e muitas outras aventuras a viver.